quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ontem, eu a vi indo embora.
ela subiu a pé o desfiladeiro
com uma malinha rosa, cheio de etiquetas nas mãos.
seu casaco era cinza escuro, com a gola de pele.
o frio era intenso, mas gostoso de sentir e respirar.
a lua estava crua e nua. mordida em vários pedaços.
e seus sapatos um pouco sujos de terra.
dava pra perceber em seus olhos o arrependimento
acho que ela rezava pra perder seu trem.
e ao mesmo tempo, pra ele correr até a estação.
talvez o destino tivesse planejado algo inusitado
ou talvez a ironia do mesmo, o deixasse só novamente.
ninguem entendeu tal atitude.
ela simplesmente se levantou de manhã, sempre do mesmo jeito
tomou seu café, na xícara florida
leu o jornal do dia, analisou o tempo cinza, estava belo, disse ela.
pegou seu casaco e saiu a pé.
tocou sua viola, em dó maior, junto a orquestra sinfonica da fundação
estudou todas as notas e escalas musicais durante seu dia
voltou pra casa e leu um livro velho.
que já estava no final.

o final?

será o final que a colocou numa situação fugitiva
em agonia eterna, sentindo borbulhar dentro de ti
a solidão, a sensação de liberdade ou a depressaõ?
fazia pouco o tempo que ela tinha me visto sentado
debaixo da árvore no parque, prestigiando seu concerto
em praça pública, com a turma da orquestra sinfonica.
ela estava linda com seus cabelos ruivos, e a face meio
duvidosa. eu não sabia se ela estava muito normal, mas
sabia que ela era diferente de todas as outras que conheci.
mesmo deixando-a ir embora, eu pensei em me despedir.
quando ela olhou pra mim, eu senti o coração extremecer.
eu a procurei por todos os lados, fui aos cafés de veneza,
aos museus de arte sacra, praças rosas, livrarias, escolas
de musica e espaços culturais. pensei em como seria
a noite em meu apartamento solitario, com sua presença.
eu seria o melhor poeta da cidade, um grande pintor renascentista,
um gênio da filosofia moderna, um sociologo, historiador ou
apenas eu mesmo, sem juízo e sem medo do futuro.
talvez eu me esquecesse do mundo la fora e começaria a viver
em função de meu amor, e me perdesse em seus seios nus.
talvez seja melhor pra nós dois ela ir embora pra longe,
e eu nunca mais pensar que eu poderia cair em sua armadilha.

como saberei?

niguém pode prever o amanhã, pois, ele nunca chega.
se nós deixarmos que esse pequeno momento se vá
e escorregue pelos dedos, como o ar, ele voa e se perde.
e se ela for quem eu procuro ou se não for, poderia ser
o amor eterno enquanto estiver ao meu lado.
talvez eu escreva um romance, se eu não viver o mesmo.
agora eu sentei na escada de incendio.
com meu caderno de contos nas mãos.
sem saber o final.
me levanto, corro até o elevador, saio do prédio.
pego o primeiro táxi, vou até a estação de trem.
haviam muitas pessoas, me empurravam, me olhavam
me pediam moedas, me pediam cigarros. onde está ela?
eu cansei. me sento. apoio a cabeça nas mãos e odeio quem sou.
a culpa era toda minha. eu escrevi o mais triste final.
agora, ela se foi.
Veneza jamais será a mesma.

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